domingo, 26 de março de 2017

Os erros e acertos do passado: uma conversa sobre economia com Samuel Pessôa

  Muito boa a entrevista do Samuel Pessôa sobre o tamanho do Estado (carga tributária e gastos públicos) e de sua interferência na economia como sendo dimensões ortogonais. Enquanto que a primeira está relacionada ao Estado de bem-estar social que depende muito das demandas sociais, a segunda de escolhas de políticas econômicas e ideologia.

  Segundo o Samuel, o PT retorna às políticas econômicas adotadas pelo governo Geisel com maior intervenção do Estado na economia, sendo que os resultados são conhecidos.

  Vale a pena a meia hora de entrevista. Uma excelente aula! Didática, muito bem organizada e informativa.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Futuro da Indústria no Brasil


Futuro da Indústria no Brasil A crise econômica atual vem afetando duramente o mercado de trabalho desde o início de 2015, pois o cenário de elevação dos juros e impostos, corte de gastos por parte do governo, além das incertezas política e econômica, levou a uma forte retração na demanda agregada que ainda mantinha as vendas das empresas e o mercado de trabalho aquecidos.

Elas foram necessárias para consertar a rota insustentável em que o país se encontrava. A dificuldade em implementar o ajustes de forma rápida e na magnitude necessária vem piorando consideravelmente o cenário ao afetar negativamente às expectativas de empresários e famílias. Adicionalmente, a elevação do desemprego e queda na renda das famílias vem deteriorando ainda mais o mercado de trabalho ao reduzir a demanda do comércio e serviços, setores que vinham mantendo o mercado de trabalho aquecido e que são grandes geradores de emprego. 

Apesar de a crise afetar os setores de serviços e comércio de maneira mais evidente desde o início de 2015, o cenário é ruim para a indústria desde a crise internacional que se espalhou para diversos países em 2008/2009. Em 2009, a indústria criou apenas 18 mil empregos formais em todo o país, mas com uma grande recuperação em 2010: geração de 520 mil empregos. A partir de então, a criação foi cada vez menor, mas positiva até 2013. Em 2014, a destruição de postos de trabalho foi de 185 mil e, nos últimos doze meses (ago/14 a jul/15), ocorreu uma impressionante redução de 450 mil vagas no setor!

A crise econômica mundial gerou um excesso de oferta de produtos industrializados em escala mundial, com consequente queda em seus preços. Esse cenário aliado a um câmbio apreciado, à elevação salarial decorrente de um mercado de trabalho aquecido, sobretudo no setor de serviços, e à brusca queda da demanda a partir de 2015 ajuda a entender a rápida deterioração do setor industrial brasileiro em um curto intervalo de tempo. 

Comparando os segundos semestres de 2014 e 2015, o recuo da produção industrial foi de 5,2%, com a indústria de transformação representando apenas 10,9% do PIB em 2014. A indústria é um setor de maior dinamismo e de potencial de inovação e, por isso, a sua retração preocupa. A recente depreciação do real alivia o setor, assim como o processo de redução dos salários pelo qual o país vem passando. No entanto, como o setor é voltado, principalmente, para o mercado interno, ele ainda passará por dificuldades ao longo de 2015 antes de esboçar uma recuperação. 

Cabe salientar ainda que, para entender os problemas atuais da indústria, não basta olhar somente para os elementos conjunturais apontados acima. É preciso ir além para perceber que a perda de participação da indústria faz parte de um processo estrutural onde ocorreu um excesso de crescimento do setor até os anos 1980, com tentativa de abastecimento de quase todo o mercado nacional com bens produzidos no país, o que gerou uma ineficiência e falta de competitividade. Para que esse processo de perda de participação da indústria não se reverta, no longo prazo, é crucial que ocorra uma integração de seus segmentos mais competitivos com as cadeias produtivas globais, que sejam atacados os problemas de excesso de burocracia e de impostos, além de realização de esforços no sentido de melhoria na infraestrutura e na qualidade da força de trabalho. 

Luciano Nakabashi, doutor em economia, professor da FEA-RP/USP, pesquisador do CEPER/Fundace e do CNPQ. exercícios para emagrecer

domingo, 16 de agosto de 2015

Pensando o Brasil

 Série muito interessante de entrevistas elaboradas e patrocinadas pela Fecomercio SP sobre os problemas que precisamos enfrentar para entrar em um rota de crescimento sustentável.

  Vale a pena assistir os vídeos. O primeiro é sobre gastos públicos, mas acaba tocando em uma série de questões relevantes (clique aqui).

  Aproveite, pois são pessoas gabaritadas e, apesar de nunca haver consenso em temas econômicos, os entrevistados apontam para questões fundamentais que temos que pensar para alavancar o processo de crescimento e desenvolvimento econômico brasileiro.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Colhendo o que foi plantando

(Gazeta do Povo - 02/03/2015)

Gosto de um ditado que diz: “Colhemos o que plantamos”. Por mais que os resultados demorem a aparecer, em algum momento os efeitos de nossas ações passadas emergem em nossas vidas, queiramos ou não enxergar isso.

O cenário favorável da economia mundial, com efeitos positivos sobre o preço das commodities brasileiras, além das reformas realizadas nos governos dos presidentes Fernando Henrique e Lula, ajudam a explicar o bom desempenho da nossa economia na primeira década do milênio. No entanto, o momento favorável acomodou Lula e a sua equipe econômica de tal forma que eles apenas colheram os frutos, no segundo mandato, esquecendo-se de manter uma boa semeadura.

No primeiro mandato da presidente Dilma, as políticas econômicas adotadas para estimular a economia foram alteradas de maneira mais nítida e, juntamente com a deterioração do cenário internacional, resultaram em frutos colhidos não saborosos ou nutritivos.

No segundo mandato, a presidente parece ter se convencido de que é preciso mudar a semeadura. No entanto, ela disse que ia plantar um tipo de semente para os eleitores e para sua base de apoio político e está querendo plantar, pelo menos em parte, o tipo sugerido pelo seu principal oponente na última eleição.

Com essa estratégia, a presidente conseguiu garantir o quarto mandato consecutivo do Partido dos Trabalhadores, mas também acabou por se colocar em uma encruzilhada: ela parece saber da necessidade de reformas, mas tem uma base política e popular que é contra as mesmas, até mesmo por enfatizar na campanha que elas não seriam necessárias. No entanto, se nada for feito, os cenários econômico e político serão muito desfavoráveis no momento das próximas eleições federais e estaduais.

Embora eu esteja convencido da necessidade de reformas e ajustes – inclusive com redução dos direitos trabalhistas e mudanças tributárias, permitindo reduzir a burocracia e a carga tributária e, desse modo, melhorar o desempenho econômico brasileiro no longo prazo, o que seria positivo para todos os cidadãos –, percebo a resistência das pessoas quando se toca no assunto. O brasileiro médio está acostumado com um Estado paternalista e muitas vezes populista, sendo compatível com sua visão de curto prazo.

A presidente e sua equipe aproveitaram bem essa característica do brasileiro médio no momento eleitoral, mas também adotaram uma visão de curto prazo ao negligenciar os efeitos sobre o apoio político e popular para as reformas que se fazem necessárias, ainda mais quando se considera o momento delicado decorrente dos escândalos da Petrobras e da fratura política que ficou exposta a partir da estratégia do vale-tudo eleitoral. Infelizmente para a presidente e seu núcleo político, os frutos estão aparecendo rapidamente.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A tempestade perfeita

(Brasil Agro)

Os atuais cenários econômico e político que estão se formando no país podem ser funestos para a atual administração pública federal. Após enfrentar uma das eleições mais apertadas da história recente de nossa democracia, os problemas que foram “abafados” no período eleitoral começam a se tornar cada vez mais evidentes.


Apesar do fato de que, provavelmente, nunca saberemos as reais dimensões da corrupção envolvendo a Petrobras, várias das principais empreiteiras do país e parte de políticos da base governista, a população percebe que este é um dos maiores escândalos que o país já enfrentou tanto em relação ao número de envolvidos quanto aos valores astronômicos.

Na parte econômica, sem o cenário cor-de-rosa das propagandas eleitorais, a população também está percebendo que o futuro (próximo?) será sombrio, com estagnação econômica, elevada inflação, perda real de poder de compra e elevação do desemprego.

Aliando os dois cenários citados acima, a população está com a impressão de que estão pagando pelos erros de política econômica, enquanto os políticos estão saqueando nossas principais empresas estatais. Isso sem contar a relação custo-benefício do programa “bolsa empresário”, que foi financiado pelo BNDES e apresentou resultados medíocres tanto em termos de desenvolvimento e fortalecimento das empresas nacionais quanto no bem estar da sociedade brasileira.

Os resultados do último pleito indicam que quase a metade do eleitorado já estava insatisfeita com a atual administração pública federal. Com o anúncio de medidas recessivas e impopulares, mas necessárias, que foram demonizadas na disputa eleitoral, a atual administração vem desagradando parte da outra metade do eleitorado sem conquistar àqueles que votaram na oposição.

Temos ainda a possibilidade de racionamento de água em várias regiões do país, especialmente no estado de São Paulo, que atinge a popularidade das administrações públicas municipais e estaduais, mas também federal. Adicionalmente, a crise hídrica, que pode afetar a oferta de energia, também tem grande potencial de afetar negativamente a popularidade da administração pública federal e o desempenho da economia. Finalmente, a perda desastrada da presidência da Câmara dos Deputados e a redução da base governista que é confiável elevam o potencial de instabilidade política.

Boa parte dos problemas enfrentados atualmente é decorrente de erros de política econômica do PT que insistiu em uma série de medidas duvidosas que ficou conhecida como a “Nova Matriz Econômica”. Esta prometia uma revolução positiva nas condições econômicas e sociais brasileiras, mas entregou justamente o oposto.

Certamente os efeitos do cenário internacional não são insignificantes, mas é difícil argumentar que é a principal causa quando o pior já parece ter passado, enquanto o país está mergulhando, cada vez mais, em um período de recessão, que trará custos sociais importantes, sobretudo na parcela da população que elegeu a atual administração para mais quatro anos. 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Dormindo no serviço


Em recente pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), constatou-se que a intenção de investimento dos empresários industriais, no ano corrente, é a menor desde 2010. Mesmo em relação a 2014, que foi um ano bem difícil para a indústria brasileira, ocorreu uma significativa queda nas intenções de investimento: de 78,1% dos empresários industriais em 2014 para 69,3% em 2015.

De acordo com os empresários entrevistados, o principal motivo para a baixa intenção de investimento é a incerteza econômica (77,4%), seguida por reavaliações da demanda (45%) e custo do crédito (34,2%). Podemos dizer que, atualmente, os erros de política econômica estão entre as principais causas dos três fatores mais relevantes para a baixa intenção de investimentos apontados pelos empresários industriais entrevistados.

As medidas de política econômica adotadas a partir do segundo mandato de Lula e intensificadas no primeiro mandato de Dilma, conhecidas como “Nova Matriz Econômica” – ou seja, estímulos fiscais setoriais, elevação do volume de crédito via bancos públicos, redução da taxa de juros de forma forçada e controle da taxa de câmbio para mantê-la competitiva –, resultaram em estagnação econômica, além da elevação da inflação, do déficit interno, que impacta a dívida do governo, e do déficit externo, com efeitos sobre a dívida externa.

Em outras palavras, a “Nova Matriz Econômica” e as tentativas de encobrir os problemas que começavam a aparecer, como o controle de preços administrados e a contabilidade criativa adotada pelo governo federal, são as principais responsáveis pela deterioração nos fundamentos da economia que levaram a um maior nível de instabilidade macroeconômica, com efeitos sobre a demanda agregada da economia e também do aumento do custo de crédito.

A nova equipe econômica denominada “liberal” foi composta para tentar arrumar a casa e colocar novamente a economia em uma rota de crescimento positivo de forma sustentável. O problema é que o trabalho é muito maior do que consertar as consequências de uma aventura irresponsável na condução da economia. Enquanto a equipe econômica anterior fazia suas experiências, o governo esqueceu que, para a manutenção do crescimento de longo prazo, reformas e investimentos são cruciais, e essa conta também está chegando para pagarmos.

Outra pesquisa da CNI sobre a competitividade internacional mostra que, entre os 14 principais concorrentes do Brasil, só não perdemos para a Argentina, sendo que o nosso país perdeu posições nos quesitos ambiente macroeconômico e infraestrutura/logística. Dessa forma, nesses últimos dois mandatos não foi comprometida somente a capacidade de crescimento no curto prazo, mas os efeitos também serão sentidos no médio e longo prazos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Petróleo em queda? Novamente a oferta e a demanda

(Gazeta do Povo - 28/12/2014)

A atual queda do preço do barril de petróleo, que ficou aquém da barreira dos US$ 60, sem corte da produção por parte dos países membros do cartel da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep), parece uma contradição. Recentemente, o ministro de energia dos Emirados Árabes Unidos (EAU), Suhail Al-Mazrouei, relatou à Bloomberg que a Opep não irá reduzir a oferta do produto mesmo que os preços fiquem abaixo de US$ 40 por barril

A referida organização fornece cerca de 40% do petróleo mundial e tem 85% das reservas, ou seja, possui grande poder na formação dos preços através do controle na quantidade ofertada, e poderia realizar cortes na produção para elevação dos preços se assim desejasse. Então, quais as causas que levaram às declarações do ministro árabe?

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que existem fontes alternativas de energia e, no conjunto, a sua oferta tem se elevado mais do que aquela do petróleo nas últimas décadas. Em segundo lugar, a crise internacional – que se iniciou em 2007 e ainda afeta duramente a Europa, além de começar a mostrar sinais mais claros no desempenho da economia chinesa – reduziu o crescimento previsto da demanda mundial por energia. Outro ponto importante é que a produção de petróleo e gás de xisto tem tornado os Estados Unidos cada vez menos dependentes das importações de petróleo. Finalmente, o preço do petróleo estava elevado, quando comparado com a média de décadas anteriores, mesmo descontando a inflação do período, estimulando o aumento da oferta de petróleo e de fontes alternativas de energia. Todos esses fatores levaram a um excesso de oferta, com consequente redução do preço do produto.

Um preço elevado do petróleo quase não tem efeitos sobre a demanda, no curto e médio prazo. No entanto, no longo prazo existe uma considerável substituição por fontes alternativas. Em economia, dizemos que a elasticidade-preço da demanda é pequena no curto prazo, mas elevada no longo prazo. Por exemplo, quem não se lembra do Proálcool, incentivado pelos choques do petróleo nos anos 70? O elevado preço do petróleo estimulou o governo militar brasileiro a procurar fontes alternativas que demandaram investimentos em pesquisa, inovações e investimentos na produção do etanol. Tudo isso leva um tempo considerável para ser realizado e, desse modo, o impacto sobre a demanda do petróleo, via substituição por fontes alternativas, acontece somente ao longo do tempo.

Atualmente, a Opep parece estar agindo de forma oposta para equilibrar a oferta e demanda, mas, sobretudo, com foco no longo prazo. Um preço mais baixo do petróleo irá desestimular novos investimentos na ampliação de sua produção futura e também em fontes alternativas, além de tirar do mercado os produtores com custos mais elevados, reduzindo a sua oferta futura e, portanto, elevando os preços ao longo do tempo. Em outras palavras, o que pode parecer um paradoxo do ponto de vista da decisão do cartel da Opep nada mais é do que uma decisão racional tomada na tentativa de maximizar o seu lucro intertemporalmente.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Recuperando a Confiança?

(Gazeta do Povo - 27/11/2014)

A indicação de Joaquim Levy para a Fazenda é uma sinalização de que Dilma parece ter sido convencida pelo pragmatismo do ex-presidente Lula, pelas eleições apertadas, pela elevada rejeição que o PT sofre em quase todos os estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, pelo fraco desempenho da economia, além das manifestações de 2013, de que é necessária uma grande mudança na economia para que o seu mandato chegue ao fim sem exacerbada instabilidade social, econômica e política.
Uma deterioração na economia – que, certamente, também afetaria as conquistas na área social – poderia ser fatal para o PT, ainda mais quando se leva em consideração todos os problemas que ainda terão de ser enfrentados no caso da Petrobras, Eletrobras, grandes empreiteiras etc. Além disso, o partido perdeu participação no Congresso Nacional e enfrenta problemas na própria base aliada, podendo ter um próximo presidente da Câmara dos Deputados que é visto mais como oposição que como aliado.

Joaquim Levy possui sólida formação em economia, vasta experiência pública e privada, competência já comprovada, além da confiança do mercado, o que é essencial para uma pessoa que irá liderar o processo de desatar os vários nós que foram criados na área econômica. Ele é reconhecido pela posição favorável à austeridade fiscal, peça-chave para que a economia possa entrar em uma rota econômica mais favorável, pois uma melhora fiscal propiciaria menor fragilidade das contas internas e externas, menor pressão inflacionária e cambial, redução das incertezas, além da redução da taxa de juros. Todos esses fatores são fundamentais para melhorar os ânimos dos empresários, os investimentos produtivos e a produtividade e, dessa forma, o crescimento econômico.
No entanto, pelo menos duas questões ainda precisam ser resolvidas: uma parte do próprio PT parece não estar convencida de que a economia necessita, com urgência, de mudanças significativas em sua atual trajetória, fazendo críticas ao nome que até já deveria ter sido confirmado pela presidente, o que gera incertezas e fragiliza logo de início o novo ministro caso ele venha a tomar posse; e não está claro se a própria presidente está convencida disso e se, portanto, dará autonomia necessária ao novo ministro.

O primeiro passo na direção correta pode ser dado pela nossa presidente ainda nesta quinta-feira. Vamos torcer para que essa decisão seja tomada e que a autonomia necessária seja dada ao novo ministro da Fazenda, pois, mesmo que isso seja feito, os próximos anos serão difíceis para o governo e a população brasileira. Não gostaria de ter de imaginar qual seria o cenário caso o governo retroceda nessa decisão e coloque um nome mais alinhado com a atual equipe econômica.

domingo, 13 de julho de 2014

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Transparência e desempenho econômico de longo prazo

Gazeta do Povo - 25/06/2014

Olhando para o índice de confiança do empresário industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI) de maio de 2014, percebe-se uma queda do mesmo desde o início de 2012. Nos últimos dois meses, o índice ficou abaixo de 50, o que indica uma falta de confiança do empresariado industrial em relação às perspectivas futuras. Esse pessimismo é generalizado, pois, em maio do ano corrente, ficou abaixo de 50 para as empresas industriais de todos os portes e segmentos analisados.

É claro que a crise econômica internacional e a elevação dos custos do setor têm afetado o seu desempenho, mas, como os piores efeitos da crise parecem ter passado, por se tratar de expectativas (os empresários estão olhando para o futuro) e pelo fato de a elevação dos custos estar relacionada muito mais a fatores internos, a explicação para a sua deterioração provavelmente está associada mais aos problemas da economia brasileira. Dentre eles, podemos citar a piora nas contas públicas e na geração de superávit, além da inflação que vem dando sinais de pequeno descontrole. No entanto, o problema parece ser decorrente, sobretudo, da falta de clareza sobre o futuro da economia brasileira.

A economia capitalista possui, de forma inerente, um potencial de instabilidade que vem à tona de tempos em tempos na forma de recessões, período em que os ajustes necessários são realizados e em que são criadas as condições para a retomada do crescimento. Um dos papéis do governo é justamente atuar de forma a criar regulações que reduzam a instabilidade do sistema econômico, criando certas amarras que reduzam as situações de desajuste.

Para a redução da instabilidade e, desse modo, da incerteza no ambiente econômico, é fundamental a criação de regras claras e estáveis, ou seja, que elas permaneçam independentemente do partido político no poder e das vontades do presidente, governador, prefeito etc. É desejável que exista também flexibilidade, pois o ambiente econômico se altera e regras que eram boas em uma determinada época passam a ser inadequadas. No entanto, se o conjunto de regras ou arcabouço institucional é de qualidade, mudanças marginais ao longo do tempo são suficientes e desejáveis, pois reduzem a incerteza e estimulam os investimentos e crescimento econômico.

A política de maquiar a real situação do superávit primário, das contas públicas e da inflação, as intervenções constantes do governo no mercado, ajudando alguns segmentos e empresas e prejudicando outras, as alterações das regras de acordo com a mudança de ventos e com visão míope, além da falta de planejamento de longo prazo, só têm ajudado a elevar a incerteza dos empresários, prejudicando as expectativas e investimentos produtivos.

O mercado possui falhas; por isso, o papel do governo é fundamental e melhora a eficiência econômica, quando as intervenções são bem feitas e necessárias. No entanto, o mercado funciona muito bem em outros aspectos e, nesses casos, o melhor que o governo tem a fazer é estabelecer as regras e deixar os empresários, trabalhadores e outros agentes econômicos jogarem o jogo do mercado.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Copa, falsos cadeirantes e Neymar

Estamos em um momento de festa no país com os jogos que estão ocorrendo. Por alguma razão, essa é uma das grandes paixões dos brasileiros, latinos e europeus e parece que vem se espalhando para outros países.

Nesse período, vemos várias imagens na internet, jornais, revistas e televisão associadas aos jogos da Copa. Hoje, navegando na internet, duas me chamaram a atenção. A primeira é:


A matéria mostra alguns indivíduos fazendo divulgação de ingressos para cadeirantes, e com pacote completo: cadeira de roda, atestado médico e passagens por apenas R$1.000,00!!! Na minha opinião, o sujeito precisa ser desonesto e "cara de pau" para anunciar isso para qualquer um... O pior é a justificativa para tal comportamento: se os políticos fazem... Por um lado, pela posição de liderança, representação e exposição na mídia, nossos políticos são e dão exemplos de comportamento e, na média, não são os melhores exemplos a serem seguidos. Por outro lado, qualquer cidadão que tenha um pouco de bom senso sabe que uma atitude errada por parte de alguém não o isenta de seus próprios atos equivocados.

A nação é construída por cada um e os políticos dão exemplos, mas também são reflexo de uma sociedade onde uma boa parte da população leva vantagem quando pode, mesmo que de forma indevida. Um bom exemplo é o caso do pênalti cavado por Fred, onde parte das pessoas ainda acha que ele agiu de forma correta.

A segunda é uma matéria no site da Uol que mostra que Neymar é quem mais vem treinando:


Ele é um garoto muito talentoso que já é uma estrela, considerado o melhor jogador em campo com a camisa brasileira e com salários astronômicos. Uma posição invejável considerando a pouca idade e que, de qualquer forma, posição que um número mínimo de pessoas no planeta irá alcançar mesmo em todo o período de vida, mesmo que vivam por 100 anos, seja em ganhos monetários, em fama e sucesso ou admiração. Nessa posição, poucos estariam se esforçando como ele, e os companheiros de equipe mostram que isso não acontece mesmo que ainda não alcançaram o nível de Neymar.

O que o nosso craque mostra é a importância da determinação e esforço para se alcançar boas posições na vida profissional e mesmo na pessoal. É claro que no caso de Neymar também há uma grande habilidade inata, mas talvez a mais importante seja a determinação que ele vem mostrando e que pode ser trabalhada por qualquer um.

Esse deveria ser o verdadeiro exemplo a ser seguido pelos jovens que estão assistindo aos jogos da Copa, pois fazendo isso, os ganhos serão muito grandes no longo prazo, seja para quem faz o esforço, seja para o país como um todo.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Desemprego, PIB e taxa de participação

ESTUDO RELACIONA DESEMPREGO E PIB BAIXOS AO RECUO NA TAXA DE PARTICIPAÇÃO
Ribeirão Preto (SP), 9/6/2014 - Estudo da Fundação para Pesquisa e Desenvolvimento da Administração, Contabilidade e Economia da Universidade de São Paulo (Fundace/USP) aponta que a taxa de desemprego no Brasil só chegou aos níveis mais baixos da história por conta da queda na taxa de participação - relação entre as pessoas que estão no mercado de trabalho sobre o total de pessoas em idade de trabalhar. O levantamento, obtido pelo Broadcast, aponta que, se taxa de participação permanecesse constante, haveria variações superiores a dois pontos porcentuais na taxa de desemprego no País. Isso explicaria, ainda, como a taxa de desemprego segue em queda mesmo com o baixo crescimento da economia brasileira.

O estudo cruzou dados das taxas de ocupação e de desemprego do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) com a taxa de participação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) entre 1995 e 2012. Os pesquisadores só não conseguiram comparar os dados de 2013 e 2014 por conta da mudança da metodologia da Pnad.

"Só poderemos comparar quando houver uma série maior da Pnad. Mas, como a criação de emprego perdeu força desde 2013, provavelmente os dados apontariam um cenário semelhante, com o desemprego maior que o medido", explicou Luciano Nakabashi, professor doutor da USP e coordenador da pesquisa pela Fundace.

Para fundamentar a tese, a pesquisa fez um recorte no tempo entre 2009, ano do início da crise internacional, quando o desemprego atingiu 8,41%, e 2012, quando a taxa foi 6,32%, ou seja, um recuo 2,09 pontos percentuais. Nos mesmos anos, a taxa de participação recuou de 62,07% para 59,83%. No entanto, se esse indicador permanecesse estável em 62,07% entre 2009 e 2012, a taxa de desemprego em 2012 seria de 8,56%, ou 2,24 pontos porcentuais superior à oficial.

"Considerando a taxa de participação e a taxa de desemprego de 2008, o ano pré-crise no Brasil, a taxa de desemprego teria passado de 7,24% para 8,46%, o que corresponde a uma elevação de 16,80%", informa o documento.

Os pesquisadores acreditam que o crescimento pequeno do País e a menor oferta de mão de obra levaram desempregados a simplesmente parar de procurar emprego. Esses trabalhadores deixaram de ser contabilizados na taxa de participação, o que puxou para baixo o indicador e, consequentemente, a taxa de desemprego. "Essa redução recente na taxa de desemprego é uma ilusão e não reflete o que acontece. Temos a intuição de que, pela piora do mercado, muita gente deixou de procurar trabalho", afirmou Nakabashi.

Estudos à parte, a taxa de desemprego segue em queda no País, assim como o Produto Interno Bruto (PIB). Em abril, a taxa de desemprego ficou em 4,9%, o menor nível para o mês desde o início da Pesquisa Mensal de Emprego, apurada desde 2002 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com a Pnad Contínua, também do IBGE, a taxa do primeiro trimestre de 2014 ficou em 7,1%.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Pleno Emprego?


Recentemente, alguns analistas econômicos têm argumentado que a economia brasileira vem apresentando uma situação estranha de baixo crescimento com pleno emprego. A conclusão é decorrente de uma redução continua da taxa de desemprego desde 2003, com exceção do ano em que a crise internacional afetou o país de forma mais acentuada: 2009. Peço desculpa ao leitor, mas para explicar o que vem ocorrendo, mostrarei uma série de dados que atrapalham um pouco a leitura.

Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mostram que a taxa de desemprego caiu de 9,72%, em 2003, para 6,32%, em 2012, ou seja, consideráveis 3,4 pontos porcentuais, o que equivale a uma queda de 35%. De 2009 até 2012, a taxa de desemprego passou de 8,41% para 6,32% (os últimos dados da Pnad que são comparáveis com anos anteriores são de 2012).
Essas observações, juntamente com um fraco desempenho da economia brasileira, que cresceu a uma taxa média de 2,1% nos últimos três anos, e que provavelmente crescerá ainda menos em 2014, geram a incógnita mencionada acima.

Para explicar tal situação, alguns analistas argumentaram que as empresas não estavam demitindo à espera de uma melhora na economia, pois os custos de se demitir e contratar novamente, no período de recuperação, seriam elevados. No entanto, essa hipótese não se sustenta quando se analisa os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, de desligamentos e contratações de empregados. Eles mostram a existência de um processo de elevação contínua no número de processos de desligamentos: 15.192.529, em 2009; 17.067.900, em 2010; 18.996.577,00, em 2011; 19.563.798, em 2012; e 20.211.364, em 2013.

Desse modo, os processos de desligamentos vêm sendo cada vez maiores, indicando que as empresas não estão deixando de demitir, muito pelo contrário. Pode-se argumentar que os trabalhadores vêm pedindo demissão devido a novas oportunidades de trabalho; hipótese difícil de ser sustentada quando se olha para o saldo líquido de criação de empregos decrescente desde 2010 (também pelos dados do Caged) e para o fraco desempenho da economia após 2010.

Então, o que explica a redução da taxa de desemprego mesmo com o fraco desempenho da economia brasileira? Os dados da Pnad indicam que, após 2008, a taxa de desemprego só caiu por causa da redução na taxa de participação, ou seja, da relação entre as pessoas que estão no mercado de trabalho (empregados ou procurando emprego), também chamada de população economicamente ativa, sobre o total de pessoas em idade de trabalhar ou população em idade ativa.

Podemos fazer um exercício considerando a taxa de participação constante desde 2008, o ano pré-crise no Brasil, ou seja, considerar que a mesma proporção de pessoas se manteve no mercado de trabalho. Nesse caso, a taxa de desemprego teria passado de 7,24%, em 2008, para 8,46%, em 2012, o que corresponde a uma elevação de 16,80%. Isso não ocorreu porque os desempregados estão desistindo de procurar emprego.

A economia está fraca e a criação de empregos também. Com os desempregados desistindo de procurar emprego fica difícil sustentar a hipótese de que a economia brasileira se encontra em pleno emprego.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A beleza da democracia

(Gazeta do Povo - 16/05/2014)

O sistema democrático é a melhor forma de participação da população no processo político de um país. Através do voto, cada cidadão pode se fazer representar em uma sociedade que possui diferentes demandas e necessidades.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conseguiu se eleger e reeleger pelo papel determinante que teve no controle inflacionário através do Plano Real, sendo que essa era uma das maiores demandas sociais do período. O ex-presidente avançou em várias outras áreas, como no saneamento financeiro de dívidas passadas, a institucionalização da responsabilidade fiscal de estados e municípios, a manutenção do processo de abertura da economia, além de avanços consideráveis na área previdenciária e do orçamento público. Também lançou programas sociais que serviram de base para o atual programa Bolsa Família e adotou medidas importantes na universalização do ensino público.
No entanto, o fraco desempenho econômico, a fragilidade externa do país pelos excessos cambiais e a crise energética, no final do segundo mandato, foram elementos essenciais no desgaste da imagem do ex-presidente e pelo desejo de mudança que ficou evidenciado nas urnas, em outubro de 2002. A eleição do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva representou esse desejo de mudança da população.
Com o benefício das reformas realizadas no governo anterior, do excelente cenário externo, da manutenção de pilares macroeconômicos essenciais como o sistema de metas de inflação e do superávit primário e também de reformas acertadas no primeiro mandato, como a continuidade do processo de reformas no sistema previdenciário, a reforma do Judiciário e as mudanças na lei do inquilinato, a era Lula experimentou um período de crescimento que não se presenciava desde os anos de 1970. Adicionalmente, o crescimento com o aprofundamento de políticas sociais acertadas, como o Bolsa Família, por exemplo, fez com que os anos 2000 fossem repletos de mudanças sociais positivas que justificaram a reeleição com folga do ex-presidente, a despeito do escândalo do mensalão às vésperas da eleição presidencial.
Entretanto, a falta de reformas necessárias para a manutenção do processo de crescimento e desenvolvimento a partir do segundo mandado do governo Lula e do governo de Dilma, da mudança do cenário internacional, da elevação da percepção da corrupção, do baixo crescimento econômico e piora significativa nas perspectivas futuras da economia, a população começou a demonstrar as insatisfações com o governo petista na esfera federal, como se pode verificar pelas manifestações que ocorreram no ano passado e pela queda na intenção de voto na presidente Dilma. Novamente, a população começa a expressar a vontade de mudança e me parece que uma mudança do candidato da situação não irá resolver, aos olhos do eleitor, os erros que foram cometidos e a vontade de mudança que uma parcela cada vez mais significativa da população vem apresentando. Muita água ainda irá rolar até a eleição presidencial, e o presidente eleito representará a vontade da população brasileira por mudança ou manutenção das políticas que vêm sendo adotadas. Essa é a beleza da democracia!

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O novo ciclo de alta da Selic


A taxa Selic serve de referência para o pagamento de juros dos títulos do governo federal e também como balizamento para as demais taxas de juros da economia brasileira, alterando decisões de consumo e de investimentos. Desse modo, ela é fundamental na determinação do nível de atividade econômica e também das contas públicas, pelo menos no curto e médio prazos.

O governo Dilma experimentou uma política econômica de redução de juros, atingindo o patamar de 7,25% ao ano, entre outubro de 2012 e abril de 2013, sendo o menor nível desde o início do Plano Real. Diante da deterioração do cenário externo à época do início do ciclo de redução da taxa de juros (setembro de 2011), a política se mostrou acertada, ainda mais considerando o fato de que não existe um consenso que justifique um patamar tão elevado para os juros da economia brasileira relativamente aos demais países e pelos seus efeitos positivos sobre as contas públicas. Aquele seria o momento ideal para testar se a economia brasileira consegue conviver com taxas de juros mais baixas do que os seus níveis históricos.

No entanto, o ciclo de redução dos juros deveria ter ocorrido concomitantemente a outras medidas de política econômica para que ela pudesse ser sustentável. Em uma economia com baixo desemprego, o que limita a elevação da produção, estímulos adicionais como desonerações de segmentos específicos, além da redução dos juros, estimularam a demanda de forma a elevar as importações, deteriorando as contas externas do país, além de pressionar a inflação, o que explica o novo ciclo de elevação dos juros que estamos presenciando atualmente. Portanto, no conjunto e considerando a conjuntura do mercado de trabalho, as medidas de política econômica adotadas foram equivocadas.

Os resultados de tais medidas de política geraram um cenário em que, além do baixo crescimento, a economia vem presenciando pioras nas contas externas, ou seja, maior dependência de poupança externa, e nas contas internas, o que gera maior instabilidade macroeconômica e prejudica investimentos, além de aceleração da inflação, que pressiona novamente os juros para cima. Em suma, o que se percebe como decorrente de tais medidas de política econômica é uma piora nos fundamentos da economia e, assim, maior fragilidade a choques externos e menor capacidade de crescimento econômico.

Se a preocupação da equipe econômica do governo federal era estimular o crescimento quando optou pelas medidas de política fiscal expansionista, ela deveria ter considerado que a economia já estava próxima do pleno emprego e que o baixo crescimento tem ocorrido, sobretudo, pela estagnação da produtividade econômica. Para retomar o crescimento seria preciso analisar, de forma cuidadosa, as causas dessa estagnação e adotar medidas que estimulassem a oferta em vez da demanda.

sábado, 22 de março de 2014

Endorcismo

  Precisamos contratar um cara como esse para viajar pelo Brasil. Tem muito trabalho pela frente...

  https://www.youtube.com/watch?v=v244fA0tnOc

terça-feira, 18 de março de 2014

Notas e salários

  (Folha de São Paulo - 18/03/2014)

  Muito interessante e relevante este estudo do Naércio (Insper) e Andréa Curi (FGV) que mostra uma associação entre notas na escola e salários (salário no início de carreira). Deve ser o primeiro estudo que quantifica essa relação no Brasil. É claro que deve estar pegando características não observáveis dos indivíduos como, por exemplo, disciplina e proatividade. De qualquer forma, é um estudo super importante e também ajuda a acabar com aquela ideia de que os alunos que estudam mais não se dão bem na vida profissional porque a escola "não ensina as lições de vida"... 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

10% do PIB para educação é uma boa estratégia?


A melhora do nível de escolaridade dos cidadãos está fortemente associada ao nível de desenvolvimento de um país ou região. É claro que países mais ricos possuem mais recursos para montar um bom sistema de ensino fundamental, médio e superior, mas existem argumentos e evidências suficientes que sugerem que investimentos em educação em uma parcela ampla da população é um aspecto importante em uma estratégia de crescimento sustentável, além de ser fundamental para melhorar a distribuição de renda.

No entanto, elevar esses gastos para 10 % do PIB significa estar acima da proporção de todos os países desenvolvidos, de acordo com dados da OCDE para o ano de 2009. Nossos vizinhos mais desenvolvidos como Chile (6,8%) e Argentina (6,9%) também não chegam perto dessa marca. Mesmo os Estados Unidos, que possuem uma das populações mais escolarizadas do mundo, gasta entre 7,0% e 7,5% do PIB em educação. A Coréia do Sul, exemplo de rápido crescimento baseado em melhora do sistema educacional, gasta em torno de 8% do PIB. O Brasil não está mal classificado nesse quesito, gastando cerca de 5,5 % do PIB, próximo à media dos países da OCDE: 6,2%.

O grande problema em aumentar os gastos no sistema educacional para 10% do PIB é que já somos um país com elevada carga tributária e essa medida de política econômica e social pressionaria ainda mais no sentido de elevá-la. Uma das fontes desses recursos seriam os royalties do petróleo, conforme lei sancionada em Setembro de 2013 onde 75% destes seria destinado à educação e 25% ao sistema de saúde. No entanto, boa parte dessas receitas está prevista apenas para o médio e longo prazo e sempre há incertezas em relação ao verdadeiro estoque de petróleo na camada pré-sal e em outros lugares de mundo, o que pode afetar o preço dependendo da oferta futura, além de outras fontes alternativas de energia que podem afetar a viabilidade da sua retirada pela redução da demanda, ou seja, não conte com os ovos antes da galinha botar!

Desse modo, os recursos para o aumento dos gastos em educação seriam provenientes, sobretudo, de uma elevação da carga tributária. A consequência seria um desestimulo aos investimentos produtivos e, dessa forma, na demanda por trabalho qualificado, com um efeito potencialmente contrário ao esperado sobre o desenvolvimento brasileiro. Em outras palavras, não adianta olhar apenas para um segmento da economia quando se formula políticas econômicas e sociais. É preciso olhar seus efeitos em outros segmentos e setores, além das fontes dos recursos necessários à sua implementação. Para melhorar a qualidade do nosso sistema educacional, a questão principal parece ser muito mais de como alocar os recursos de forma mais eficiente do que de como elevá-los.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Cafezinho do Senado

   Dá para entender porque o salário de um garçom no Senado é o mesmo de um professor universitário?


     Sim, esse tipo de distorção explica muita coisa da atual situação brasileira...